Apresentação Projeto Fórum Romano

O projeto apresentado “diz respeito apenas ao Fórum Romano, ou seja não contempla o edifício destinado ao Museu, para este ainda não está nada definido”, deixou claro o presidente da Câmara de Beja. O projeto do Fórum Romano inclui “empreitada, 900 mil euros, assim como 600 mil para fiscalização e segurança, acompanhamento arqueológico, recuperação de arqueologia e projeto de execução e o Município tem de o candidatar até 31 de março para conseguir financiamento”. “Mesmo assim, 300 mil euros sairão da tesouraria da autarquia, um esforço considerável”, frisou Paulo Arsénio. Depois do financiamento, o presidente da Câmara esclareceu em que fase o processo se encontra, quais os procedimentos que se seguem, e apontou para o “final deste ano, princípio de 2021, o início das obras fundamentais para estabilizar as estruturas degradadas”, que “depois de iniciadas terão um prazo de duração estimado de 12 a 14 meses”. Adiantou que “ainda não está definido o que vai ficar à mostra e o que vai ser tapado”.

Na apresentação esteve Ana Paula Amendoeira. A diretora regional de Cultura do Alentejo esclareceu que “discutiu com a autarquia a necessidade urgente de se encontrar uma solução para a conservação dos bens presentes” e que a “fase de relatório e proposta mereceram parecer favorável condicionado pelas questões da conservação e acompanhamento arqueológico”. Acrescentou que o projeto, composto por relatório prévio e proposta, “cumpre as regras, ou seja reversibilidade e impacto negativo mínimo”. Frisou que o projeto “pára a degradação das estruturas escavadas" e que esta foi a "prioridade absoluta da Direção Regional de Cultura do Alentejo”.

Os arquitetos Vítor Mestre e Sofia Aleixo são os responsáveis pelo projeto que sugere a construção de um edifício que envolve o quarteirão ocupado pelo Fórum Romano, com entrada pela Rua da Moeda, com uma elevação de 2,40 metros de altura. Há uma entrada onde os visitantes são recebidos para seguirem depois num corredor, em vidro e climatizado, que percorre as ruínas e em que podem ser vistos, em holograma, nas visitas diurnas e noturnas, os legados como eram há 2000 anos. Os visitantes podem, ou não, entrar nas ruínas, onde há um passadiço, com estrutura de borracha, para não causar danos. Sendo este um projeto de visitação, o arquiteto Vítor Mestre deixou claro que só será executado depois de terminados “consolidação estrutural, restauro, drenagem de águas e consolidação das estruturas periféricas, ou seja os muros vizinhos do espaço”.

O arquiteto Vítor Mestre fez questão de dizer, igualmente, que o projeto apresentado “foi feito, sempre, em conjunto com a autarquia e os técnicos da Direção Regional de Cultura do Alentejo, processo que vai continuar a acontecer durante a empreitada de arqueologia”. Quanto ao edifício, de metalomecânica, amovível, “não vai precisar de estaleiro de obra”, revelou, “porque vai ser produzido fora para chegar a Beja em peças que ganharão forma depois de aparafusadas, e montadas, no espaço onde vão ficar”.

A apresentação do projeto do Fórum Romano de Beja foi muito participada e contou com a presença de muitos interessados que intervieram, deixando críticas e elogios ao previsto. Os conhecidos professores, de Coimbra, Adília Alarcão e Jorge Alarcão foram os primeiros a levantar dúvidas e a deixar contributos. Adília Alarcão criticou a necessidade de se “ter de construir mais um edifício”, que , na sua opinião, “vai deixar muita ruína escondida”. Gostou da solução do vidro. Jorge Alarcão também não concorda com “a construção do edifício”, e do facto de “ser elevado”, preferia “um acesso direto” e frisou “não estar resolvido o problema mais grave de apresentação das ruínas, ou seja a dificuldade em se perceberem as mesmas”, advertindo para “a necessidade de se enterrar alguns vestígios e elevar outros”. Mostrou-se preocupado com a questão “da drenagem das águas” e pediu “para se aplicar a solução só depois da recuperação arqueológica concluída”.

O professor José Filipe Murteira partilhou as questões “da interpretação do sítio”, que Jorge Alarcão já tinha identificado e perguntou “o que se vai fazer do Museu de Arqueologia/Centro de Arqueologia e Artes”, assim como se “poderá haver, ou não, entrada por este edifício”. O bancário Jorge Cameira não gostou da solução, dizendo que “a estrutura moderna proposta não condiz com a história de Beja”. O arqueólogo Miguel Serra quis saber porque, “não estando concluído o projeto arqueológico em curso, se avançou para um projeto de valorização” e se “houve articulação com a equipa de Coimbra.”

Ficou claro, segundo Paulo Arsénio, que “o Centro de Artes poderá abrir, com exposições temporárias, e depois permanentes, no outono” e que “ainda está a faltar articulação deste edifício com o projeto do Fórum Romano”. O presidente da Câmara lembrou que “não havia nenhum projeto anterior, em termos de visitação e estabilização e que este é o primeiro”, respondendo à critica de Adília Alarcão quando disse “faltar programa na cidade para os legados romanos”. Mas foi o arquiteto Vítor Mestre quem revelou que “não foi possível estar com a equipa de Coimbra”, sem desvendar os motivos. “Esta é uma solução que não inviabiliza outras e para o século XXI”, frisou.

A professora Conceição Lopes, responsável pelas escavações no Fórum Romano de Beja desde 1997 e até 2019, referiu apreciar “o trabalho dos arquitetos responsáveis”, considerando, contudo, o “projeto intrusivo no espaço” e disse que “não conta uma história de uma narrativa”. Deixou contributos. “Deixar a descoberto o batistério, a Casa da Moeda e as casas do Século XVI existentes, que estão escavadas, assim como a cisterna republicana, dos anos 40 e os celeiros que abasteceram a cidade nos séculos XVII e XVIII.”

A engenheira Goreti Margalha fez elogios à proposta, mas mostrou dúvidas quanto ao facto, das “escavações puderem não ser compreensíveis nos percursos traçados”, pediu para se “tirar partido do edifício existente” e “devolver ao fórum peças espalhadas por outros monumentos da cidade que lhe pertencerão”. A mesma preocupação mostrou Maria João Roque, da Associação de Empresários da Vidigueira. O engenheiro eletrotécnico António Mourão, interveio para dizer que “visto que a maioria das pessoas” não tinha “gostado da solução do edifício”, o “chão poderia ser de vidro”.

O historiador Santiago Macias começou por realçar “o importante trabalho desenvolvido pelos professores Jorge Alarcão e Conceição Lopes quanto aos legados romanos na cidade” e teceu elogios ao projeto apresentado. “Discreto e reversível, podendo ser compatibilizado com as obras de conservação que ainda faltam fazer” foi o que referiu, pediu para voltarem para “o espaço algumas das suas colunas” e disse que se está “no bom caminho para resolver a situação atual do Fórum Romano”.

No início da apresentação, Paulo Arsénio e Vítor Mestre frisaram que o que estava a ser mostrado era “o conceito, aberto a contributos”, revelando não ser este “um processo fechado”, características que Luís Miranda reiterou no final da sessão. O vice-presidente, recordou, contudo, que “este Executivo tomou posse em 2017” e que “encontrou este processo numa fase em que o empreiteiro exigiu uma indemnização de 800 mil euros”. “Vítor Mestre foi o arquiteto do Executivo anterior”, revelou, ainda, Luís Miranda, para fechar referindo que “os dinheiros públicos são para serem bem utilizados depois de se pensar e refletir, no sentido de não se comprometer o futuro da cidade.”

Paulo Arsénio foi quem lembrou que “em 10 anos, este processo penalizou, em esforço financeiro, o Município de Beja em 3 milhões e 800 mil euros”. “Este é um projeto que não coloca nenhum outro em causa e que pode pode ser reversível no futuro”, clarificou o presidente da Câmara.


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